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Liberdade com responsabilidade

Uma amiga e jovem universitária recentemente publicou que quer ter a liberdade de ser quem é, mesmo os demais do entorno não aceitem ou aprovem. Que as pessoas vivam na realidade.

A atual juventude brasileira precisa de mais exemplos assim. Ter a liberdade foi algo muito caro que a geração dos jovens dos 60, 70 e início dos 80 brigaram. Ainda que a abertura do final do regime militar somente em 1988 tenha trazido uma nova Constituição, independente de suas falhas, a eleição para presidente em 1989 e entre outras legislações uma educacional em 20 de dezembro de 1996, é certo também que a geração que nasceu a partir dos 1990 mudou a postura de ser.

Escola local de prática do protagonismo?

Escola local de prática do protagonismo?

Recentemente os movimentos e manifestações contra aumento de passagem, impostos e corrupção trouxeram um jovem que passou a militar por causas específicas sem necessariamente estarem vinculados a partidos. Movimento este que motivou partidos e movimentos políticos partidarizados a negarem por um lado algumas manifestações dizendo ser desta ou de outra tendência. Alguns partidos buscaram mostrar por meio de bandeiras e militantes a participação em algumas manifestações. Os demais participantes aceitaram a participação destes grupos porém sem as bandeiras. Excessos também aconteceram com baderneiros infiltrados nos movimentos, policiais com pouca preparação para conter multidões. 

Poderão dizer que a jovem citada no início do texto não tem a responsabilidade só a impulsividade. O jovem é naturalmente um impulsivo. A necessidade de se colocar como ator social em uma sociedade formada gera contestações, dúvidas, mudanças. Mannheim em sua obra enfatiza a questão das gerações novas e suas relações com a geração atual. Se não houvesse este desejo e vontade de mudança a Sociedade Humana não teria evoluído. Mas a impulsividade não pode ser ligada (infelizmente o senso comum de contradições cheio está) a falta de responsabilidade. Responsabilidade que perpassa pela análise do mundo a sua volta.

O chamado jovem crítico, protagonista. O mesmo que se deseja que saia dos bancos escolares, mas que infelizmente outros colegas professores nem sempre compreendem. Mesmo entre os defensores e atuantes docentes que buscam a autonomia do jovem encontra-se alguns que não aceitam quando o jovem contesta posturas de sala de aula. Não são as contestações livres, sem fundamentos, combatidas com certo vigor, mas justamente aquelas fundamentadas, documentadas, argumentadas. Falas que incomodam e retomam a necessidade da reflexão e discussão, gerando novas tomadas de decisões e mudanças de práticas profissionais, que não se sustentam mais apenas pela relação professor aluno, como sendo o primeiro o detentor do saber, algo contestado há tempos por Moran. Falam alguns então em punir, afastar este jovem, como forma de não se abalar a estrutura existente, aquela que alguns citam como a autoridade docente. Contraditória a atitude infelizmente. Autoridade docente não está relacionada a postura docente. Pelo menos deveriam ser entendidas de forma diferente.

Mas não se pode colocar a responsabilidade sobre os docentes de forma exclusiva. O modelo pedagógico administrativo da Escola de hoje não foge da estrutura da Escola Republicana Graduada de 1890. Foi um modelo revolucionário para a época que sobretudo trouxe organização e sistematização para a Educação. Mas precisa ser ressignificado, ajustado. Não é somente mudar formas de avaliação. Mas toda uma estrutura e desde o princípio da Educação Básica e de como está direcionada a formação docente, que engloba ou deveria envolver a formação de todos os demais profissionais da escola. A Gestão de uma Unidade Escolar precisa ter uma diminuição de algumas burocracias. Para evitar que se distancie do contato com o foco da escola. O aluno.

Quando a geração do presente autor diz que os jovens estão sem objetivos, não seria para se refletir o que a atual geração buscou colaborar na formação da geração nova?  Será que não são falas, quase clichês, feitas para esconder os erros que uma geração cometeu? Rupturas e divergências entre gerações são comuns. Mas a geração do conhecimento ingressa em um mundo vislumbrado pela geração anterior. O desejo da liberdade do acesso à informação foi em parte atingido com a internet. Quem hoje não procura um termo ou assunto em buscadores como o Google? Um celular hoje muitas vezes tem a função telefone como a menos acessada. Tem-se a imprecisão muitas vezes da informação atingida. Imprecisão que não é exclusividade para nenhuma geração. Algo que todas as gerações poderiam buscar juntas as respostas. Até porque a geração nova terá em breve uma outra geração que poderá contestar exatamente a profusão de informações hoje existente. Precisa-se buscar uma forma de se ter a informação melhor qualificada. A Responsabilidade, ou sua falta, parece estar mudando de lado. A coerência muitas vezes se perde também.

Acomodação não parece ser a postura da jovem aqui citada. Tanto que a trajetória de aluna envolvida com seus estudos e participando dentro e fora da escola desde pequena em representação estudantil e com entidades de educação não formal da sociedade civil exatamente o protagonismo que alguns defendem. Mas que precisa ser praticada.

Nas escolas existe uma fala constante de se buscar desenvolver diversas atividades de protagonismo, desde a redemocratização, há quase 30 anos, de se envolver os jovens na tomada de decisões. Os Conselhos Escolares são um exemplo da falta de incentivo. Muitas vezes os alunos pouco participam de um espaço de representação. E quando participam correm o risco de serem julgados como sendo pouco experientes. As redes sociais libertou toda uma geração da barreira do acesso ao conhecimento.  Falta muitas vezes a mediação orientando melhor aos jovens de como se encontrar informações coerentes e o que são bases confiáveis. Porém isso para alguns pode gerar jovens contestadores ao próprio docente. O conhecimento mediado é algo que gera mais trabalho docente. Os escolanovistas como Anísio e Azevedo já diziam isso nos anos 20 no Brasil. Bem antes dos construtivistas.

Os currículos enciclopédicos pouco parecem estar articulados com a mediação do conhecimento. Não se precisa mais decorar hoje fórmulas e longos tratados. Eles estão acessíveis de forma global. Precisa-se no entanto popularizar este acesso no seu dia a dia. Ainda hoje se vê textos serem xerocados em bancos universitários quando poderiam ser compartilhados em nuvem ou mesmo transmitidos de forma on line. Claro que a questão da autoria deve ser respeitada, mas é um debate interessante a ser feito até onde autoria significa não divulgação em meios virtuais. Não cita-se aqui cópias de livros pela internet (apesar que o avanço dos e-books). Mas é contraditório em alguns níveis de ensino alunos copiando lousas por 1 hora e meia toda semana. A atividade intelectual de hoje atrelada a tecnologia da informação e comunicação possibilita ampliação de debates e avanços de concepções e permite eliminar atividades mecânicas o que até há pouco tempo não eram possíveis.

Infelizmente faltam ações de prática e articulação unindo a fala com as ações efetivas ligadas aos espaços verdadeiramente de decisão e participação para estes alunos.  Caso contrário poucos poderão como a jovem deste texto desejar liberdade com responsabilidade

O presente texto é uma versão ajustada depois da leitura da jovem. Colocar um texto para ser lido por uma jovem crítica é algo significativo. Uma prática que poderia ser constante. Aqui será. 

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3 Respostas para “Liberdade com responsabilidade

  1. Gostei da reflexão mas acho que alguns jovens jamais serão Reis…Os que querem ser reis devem ter princípios, por isso antes de ser Rei tem que ser Príncipe, para ver se seus princípios permanecem, e em muitos desses jovens, acredito que não há princípios. ..

    • Prof Christian

      O papel de um educador é hoje ser um mediador. Atrair o jovem para este princípio social é tarefa não só da família e da Escola. É uma tarefa da sociedade de se construir um rol de princípios e discuti-los

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